Ex-procurador no AC, conhecido caçador de corruptos, critica Lula, Moro e Bolsonaro
Ele ganhou fama nos anos 90 a partir de ações no Acre e agora sai do ostracismo atacando até colegas
TIÃO MAIA, PARA CONTILNET

Tamanho desapego e com tanto tempo livre para atuar no combate ao crime no Ace, já que não tinha família, amigos ou conhecidos no Estado e morava na própria sede do Ministério Público Federal (MPF), então situado na Avenida Getúlio Vargas, no centro de Rio Branco – dali não saindo nem para fazer refeições e só comia biscoitos e outros produtos prontos, temendo ser envenenado, o procurador com jeito de esquisito, ganhou fama, a partir do Acre, de “caçador de corruptos”.
Isso porque, uma vez instalado no Acre, os primeiros a entrarem eu seu radar foram ninguém menos que o então governador Orleir Cameli (1995 a 1998), o então deputado federal Hildebrando Pascoal, cassado e preso em 1999, e o então presidente Fernando Henrique Cardoso, principalmente pelo chamado escândalo da reeleição, em que deputados do Acre foram pilhados em gravações clandestinas confessando terem recebido, a partir da iniciativa de ministros de FHC e com a aquiescência do próprio presidente, a quantia de R$ 200 mil (numa época em que R$ 1 Real valia 1 US$). A aprovação da emenda da reeleição beneficiaria diretamente o então presidente com um novo mandato, com a aprovação da reeleição.
Como os deputados envolvidos eram do Acre – João Maia, Ronivon Santiago, Chicão Brigido e Osmir Lima, além de haver indícios de que o autor das gravações, um certo “Senhor X”, seria a do empresário Narciso Mendes de Assis, todos envolvidos com a política local. O procurador tentou investigar o caso e trombou de frente com o então procurador-chefe, Geraldo Brindeiro, ligado à FHC e ao PSDB e não por acaso chamado de “Engavetador Geral da República”, por sua incrível capacidade de mandar arquivar ou não deixar prosperar ações envolvendo o então presidente.
Luiz Francisco atraiu a atenção – e a ira! – do próprio FHC, que o chamou um dia de “Quasímodo”, personagem central do livro “Notre-Dame de Paris”, da autoria de Victor Hugo, publicado em 1831, que conta história de um corcunda de nascença, que habita o campanário da Catedral de Notre-Dame de Paris, vivendo afastado da sociedade e temido pelos habitantes locais. O personagem foi adaptado inúmeras vezes, principalmente no cinema. Em 1996, a Walt Disney lançou a versão animada do romance, com variações no enredo, que foi posteriormente incluído entre seus Clássicos. Ficção pura.
Na dura realidade do enfrentador de corruptos, Luiz Francisco parecia mesmo com o personagem citado por FHC: vivia isolado e só deixou de mandar o motorista do MPF comprar os biscoitos com os quais se alimentava (alguns amigos de sua confiança, que já fizera no Acre, ao saber de sua situação, chegavam a levar comida pronta a sede do órgão), quando a Polícia Federal gravou o funcionário em telefonemas ao então deputado federal Hildebrando Pascoal, investigado pelo procurador por conta das chacinas que ocorreram o Acre após a morte do então tenente e vereador Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando. O funcionário foi demitido a bem do serviço público.
O então governador Orleir Cameli também não saia de seu radar. Consta que foi Orleir, acompanhado de toda a bancada do Acre na época – deputados e senadores (a única exceção foi a então senador Marina Silva), que conseguiu a remoção de Luiz Francisco de volta a Brasília.
Já em Brasília, mantendo os mesmos trajes e os votos de pobreza, ele agora dirigia um baqueado fusca vermelho – talvez referência aos tempos em que era filiado e militante do PT, militância da qual ele só se afastaria formalmente ao passar no concurso da PGR (Procuradoria Geral da República).
De volta a Brasília, ele manteve Hildebrando Pascoal sob sua observação e também voltou suas ações para o então senador Luiz Estevão, eleito pelo Distrito Federal, que acabou cassado e preso, e também conseguiu a renúncia do então senador Antônio Carlos Magalhães, acusado de violar o painel do Senado Federal. Novas ações contra Fernando Henrique Cardoso e seus ministros, que resultaram em acusações sem provas e suas irrefutáveis relações com o PT, deixaram o procurador em mus lençóis e ele teve que enfrentar um longo período de ostracismos.
Mas está de volta e acaba de conceder uma entrevista exclusiva ao portal UOL, em Brasília, no qual não poupa o presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro Sérgio Moro e seu colega de PGR Daltan Dallagnol. É duro com o colega e diz ter vergonha de fazer parte da mesma instituição que o coordenador da Força Tarefa no Paraná. Sobre Bolsonaro, diz esperar que ele sofra um impeachment e também crítica Lula por ter se permitido receber mimos de empreiteiras.
Ao que tudo indica, o procurador que é um velho conhecido dos acreanos, não mudou nada. Mora numa cidadezinha de Goiás, nos arredores de Brasília, numa casa de três pisos, literalmente cheia de livros e gatos. Ele próprio é autor do livro “Socialismo: uma Utopia Cristã”, de 850 páginas.