Uma doença silenciosa chamada hepatite
Entre alguns médicos infectologistas do país, o Acre é apelidado como “o Estado da hepatite”. A hepatite é mais que uma doença no Acre, é um caso sério de saúde pública, um dos que mais registra números de doentes proporcionalmente ao número de habitantes.
Segundo o Ministério da Saúde, de 1999 a 2011 (com dados preliminares para o último ano), foram notificados 343.853 casos de hepatites virais no Brasil. No Acre, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre), de 2007 a agosto de 2012, foram notificados 16.943 casos, um número mais do que preocupante.
Com cinco tipos de vírus, cada um com suas características próprias, o processo histórico que levou o Acre aonde está hoje é longo.
Não existem motivos concretos que fazem o Estado ter um dos maiores números proporcionalmente de pessoas contaminadas pela hepatite, embora especialistas tentem explicar. O que existe hoje é uma luta gigantesca tanto do governo, que tem que tratar e prevenir a doença na mesma intensidade, quanto dos pacientes, que acima de tudo tentam sobreviver.
Que doença é essa?
As hepatites são variadas porque são causadas por diferentes vírus. Então o que as une para que tenham o mesmo nome? Todos esses vírus atacam o fígado, principalmente. Os vírus são nomeados por letras de A a E, e podem ser divididos em dois grupos: agudos (curto período de evolução) e crônicos (longo período de evolução).
ntre as hepatites agudas está a hepatite A – comum principalmente em crianças e que não têm remédio, é curada com cuidados especiais de alimentação e higiene. A hepatite E tem as mesmas características da A, mas gera complicações em grávidas.
Já as crônicas são as hepatites B, C e D. Elas ficam anos atacando o fígado e o infectado não sente nada. Quando começa a sentir é porque a situação já está grave. São elas as responsáveis pela cirrose e o câncer de fígado, doenças complicadas e de tratamento difícil e prolongado.
O médico infectologista e hepatologista Thor Dantas explica: “Enquanto as hepatites A e E ocorrem por meio da água e alimentos contaminados, as hepatites B, C e D [Delta] são transmitidas por meio do sangue [transfusões, cortes, agulhas compartilhadas, alicates de unha, sexo sem camisinha, procedimentos hospitalares irregulares e da transmissão na gravidez da mãe para o bebê]”.
Como é uma doença que não apresenta sintomas, o melhor é que se façam exames preventivos.
A própria rede pública de saúde oferece o teste rápido em todas as Unidades de Referência da Atenção Primária (Uraps) para hepatite B e C, com resultado em menos de 10 minutos. Karine Pinheiro, da Secretaria de Saúde de Rio Branco, revela: “Infelizmente nós encontramos muitas pessoas contaminadas por meio das ações com teste rápido que fazemos fora das Uraps”.
O tratamento da hepatite existente hoje é baseado na droga Interferon, com necessidade de aplicação de uma a três vezes por semana, por, pelo menos um ano e meio. É um remédio de difícil aceitação do organismo e com variações dos efeitos colaterais.
Para complicar ainda mais, existem pessoas que não têm nenhuma tolerância ao remédio e ele não é recomendado para quem tem transtornos psiquiátricos.
“A hepatite B ainda tem um diferencial por existir um coquetel que o paciente pode tomar pelo resto da vida caso não possa ter acesso ao Interferon. Assim, ele não desenvolverá mais a doença”, reforça Thor Dantas. Já a hepatite C só pode ser tratada com Interferon.
Os resultados nem sempre são satisfatórios e a doença, que por um momento parece desaparecer, pode voltar, necessitando de um novo tratamento. Mas a hepatite tem, sim, cura completa.
A estrutura do Estado
“Temos consciência de que a hepatite é um problema de saúde pública no Acre. E por isso temos que continuar a investir numa política muito forte de combate”, aafirma Suely Melo, secretária de Estado de Saúde
Com um grande número de portadores da doença, o Acre também virou uma das maiores referências do país na questão de especialistas, tratamento e estrutura para combate à doença. Atualmente, segundo os números do Serviço de Assistência Especializada (SAE), são cerca de 2.600 pessoas em tratamento de hepatite C, 2.500 em B e 540 em D, número que está sempre mudando.
Para os pacientes são dados não só o tratamento e estrutura de exames, mas todo o acompanhamento psicológico, social e médico-multidisciplinar. E justamente para manter essa estrutura foi criado o SAE, dentro do Hospital das Clínicas.
TRATAMENTO com Interferon é
realizado no Hospital das Clínicas.
Quando o cidadão descobre ser portador de hepatite por meio dos exames, é encaminhado imediatamente ao SAE, onde é agendada uma consulta com um dos infectologistas que compõem a equipe e são solicitados os exames de sangue, ultrassom, endoscopia e PCRs (que mede a dosagem de proteína C). Dependendo da carga viral do paciente, o médico solicita a medicação.
Segundo Edna Gonçalves, gerente-geral do SAE, existem casos em que o paciente não precisa de tratamento imediato, enquanto em outros é urgente. “É uma doença silenciosa. Quando se manifesta é porque o paciente já está em estado grave.
A maioria das pessoas descobre ao acaso.” O próprio Hemoacre é responsável pelas descobertas de muitos doentes por meio dos exames de doação de sangue.
Este ano há um foco maior nas campanhas. Segundo a secretária Suely Melo, 80% dos casos registrados de hepatite B ocorrem em pessoas de 20 a 39 anos. Em 1999 foi realizada a campanha de vacinação em massa contra hepatite B no Acre.
Foram disponibilizadas três doses de vacina para a população. Hoje, a criança nasce e já recebe imediatamente a primeira dose. Mas existe um problema que tem se tornado comum: dificilmente a mãe leva a criança para tomar a segunda e terceira doses da vacina.
TESTE Rápido para HIV, Hepatite B e
C, são realizados pela rede pública
O objetivo do governo é disponibilizar a vacina contra a hepatite B para 95% da população estadual de 0 a 29 anos. “Uma vacina custa apenas R$ 14, já o tratamento é uma fortuna”, reforça a secretária. Para que recém-nascidos tomem as três doses, está sendo implantado um Livro-Espelho, que terá os dados das crianças e aumentará o controle, fazendo com que os profissionais de saúde cobrem diretamente as mães na hora de dar a segunda dose para o filho.
Tudo é pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Cada tratamento à base de Interferom é bancado pelo governo federal e custa R$ 156 mil por paciente. Durante o tratamento alguns pacientes necessitam de transfusão de sangue e procedimentos cirúrgicos para vedar hemorragias internas.
O serviço do SAE é extremamente reconhecido tanto pelos pacientes, que dificilmente apresentam queixas, quanto pela comunidade médica nacional e internacional. Conquistou até mesmo o prêmio Inovação em Virologia 2012, da Bristol Myer Squibb, e é considerado o melhor atendimento do Brasil nos casos de doenças infectológicas.
Uma novidade para o tratamento da hepatite é a parceria do governo do Acre com a Fundação Mehlier, que trabalha com pesquisa molecular e vai montar um laboratório para entender os vírus e a resistência dos medicamentos. A planta do projeto já está aprovada, e até o fim deste ano as obras devem começar.
“É preciso investir nos pacientes que já estão doentes e prevenir novos casos na mesma intensidade. É necessário ‘secar esse poço’. Meu primeiro marido morreu de hepatite D. Eu não quero isso pra ninguém”, finaliza Suely Melo.
Quando o fígado não aguenta
O fígado é um órgão constituído por milhões de células – os hepatócitos -, localizado no lado direito do abdômen, e produz substâncias essenciais para o equilíbrio do organismo. Embora tenha uma capacidade extraordinária de recuperação, certas doenças provocam insuficiência hepática aguda ou crônica grave que podem levar à morte. É a hepatite C a maior agressora de fígados no Brasil, responsável pela cirrose, que o degenera lentamente. Quando o nível de debilidade do paciente se torna muito grande, é necessário um transplante.
Quem vê hoje o ex-jogador profissional de futebol de salão Eupídio Rodrigues tranquilo e sorridente não imagina o que ele passou nos últimos anos. O aposentado descobriu a hepatite C em 2001, quando fazia um check-up em Goiânia (GO). “Acho que eu peguei com aquelas aplicações de Glucoenergan [energético famoso e bastante utilizado no passado], que nós jogadores fazíamos, uma atrás do outra”, admite.
Para ele, as coisas seguiram um ritmo desgastante,. “Quando descobri a doença estava tranquilo, porque, na verdade, eu não sentia nada. Ainda bebia minha cervejinha normalmente. Depois as coisas ficaram piores. Tive até encefalopatia [síndrome com alterações cerebrais decorrentes da má função hepática].”
Foi só em 2005 que a médica infectologista Judith Weirich deu o ultimato: “Ou você para de beber ou morre”.
Em 2006 começou o tratamento com Interferon, mas por apenas um ano. Negativou, mas, voltou seis meses depois, acompanhado então de uma avançada cirrose que fazia com que seu fígado funcionasse com apenas 46% da capacidade, e caindo. Em 2009, a notícia: precisava de um transplante.
Eupídio hoje sorrir, após receber um fígado do próprio filho
No Acre são realizados os transplantes de rim e córnea, mas não os de fígado. Segundo Thor Dantas, o transplante de fígado é extremamente complicado.
O Acre se prepara há anos e ainda não conseguiu realizar um. É difícil e requer cuidados muito especiais”. Para suprir a demanda, o Estado conta a parceria do médico Técio Gensini, referência no Brasil nessa área que vem uma vez por mês ao Estado e faz um levantamento dos pacientes que precisam do transplante.
Oitenta e sete acreanos já fizeram transplante de fígado. A fila hoje tem 36 pessoas. O destino desses pacientes, quando estão preparados para o transplante, é o Hospital Bandeirantes, em São Paulo.
No Acre já estão sendo feitos o pré-operatório e a preparação para o transplante. Por causa disso, atualmente, apenas 15 dias depois do transplante o paciente já pode voltar para casa. O resultado desses investimentos também gerou uma redução de gastos nos Tratamentos Fora de Domicílio (TFD).
Eupídio foi um desses transplantados. O filho mais novo decidiu doar um rim para ele quando a compatibilidade foi comprovada, e a cirurgia realizou-se este ano, sob os cuidados do médico Gensini e sua equipe. “No dia 16 de abril me ligaram e perguntaram: ‘Tá preparado?’. Eu confirmei, e uma semana depois dia 23, fiz o transplante em São Paulo. Começou às 10h30 e terminou à meia-noite. Me recuperei rápido, meu menino também, já está levantando peso, viajando com a namorada. E eu estou aqui”, conta, sorridente.
Bethânia lutou contra HIV e hepatite
C e hoje tem uma vida normal
Agora, Eupídio tem de tomar remédio a vida inteira e não faz nenhuma “extravagância”, “Eu larguei até o refrigerante”. Mas as coisas não são tão simples. A hepatite continua a existir na vida do ex-jogador, e o tratamento por enquanto não é possível. Mesmo tranquilo, ele fica triste ao lembrar: “Perdi três amigos para a hepatite C. Eles não aguentaram, e eu estou aqui na luta”. Quando olha para o futuro, Eupídio revela apenas um grande desejo: “Tenho vontade de viajar como eu viajava, mas para passear, não para tratamento”.
Uma nova esperança
A hepatite tem a transmissão mais fácil do que o próprio HIV. É um vírus forte e resistente – pode passar até sete dias vivo fora de um hospedeiro. Em especial, a hepatite C foi descoberta apenas em 1989 e ninguém se preocupava muito com a transmissão dela. O próprio serviço de saúde pública no Brasil foi transmissor de muita hepatite com agulhas e seringas de vidro reutilizáveis.
A hepatite D, segundo a gerente do SAE, também apresenta particularidades. “Essa é uma doença da Região Norte. No Sul e Sudeste, por exemplo, não há hepatite D, que na verdade só pode ser adquirida se a pessoa já tiver a B. Em compensação, o Acre está ficando cada vez mais rico como área de pesquisa e entendimento das hepatites virais”, declara.
A secretária de Estado de Saúde, Suely Melo, conta que, no campo do transplante de fígado, recentemente uma capacitação deixou 110 pessoas aptas para todo o processo de transplante, desde a captação até o transplante em si. O primeiro transplante de fígado no Acre deve acontecer até o fim deste ano.
Já o tratamento continua sendo à base de Interferon. Porém, uma nova fase para o tratamento da hepatite começa com o lançamento de duas novas drogas surgidas no fim de 2011: o Boceprevir e o Telaprevir. Mas as coisas não ficaram mais simples.
Como no Acre a situação é grave, aconteceram muitos pedidos do Boceprevir, que foi vendido como a solução para quem não conseguira negativar a hepatite apenas com o Interferon. É um produto novo e de alto custo – só o tratamento de Boceprevir custa R$ 60 mil por paciente e deve ser tomado junto com o Interferon.
Alguns pacientes entraram na Justiça para pedir o remédio e foram atendidos.
Segundo Edna Gonçalves, do SAE, muitos não resistiram ao tratamento até o fim, foram para a UTI e tiveram que largar. Há o interesse do governo federal em disponibilizá-lo, mas aos poucos. “Se o médico faz uma propaganda positiva do remédio, é claro que um paciente grave vai desejá-lo, porém, sem ter realmente ideia do seu verdadeiro poder e do quanto ele também pode ser perigoso”, conta Suely Melo.
Para o médico Thor Dantas, a previsão é de que a partir de agora um remédio novo será lançado por ano contra hepatites virais, e que daqui a cinco ou sete anos já deverá existir um tratamento que não precise do Interferon. “E o que fazemos nos laboratórios hoje? Indicamos que os pacientes que possuem hepatite C leve e que não precisam de tratamento imediato aguardem os novos remédios, mas o paciente com hepatite C, já em estado debilitado, deve começar o tratamento imediatamente e procurar maneiras de suportar os efeitos colaterais”, revela o especialista.
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