O dilema da criação de filhos no Brasil: a ética compensa?
A dentista Márcia Costa abomina infrações às leis de trânsito. Em
especial, a prática adotada por muitos pais de parar o carro em fila
dupla, interrompendo o fluxo de veículos, para deixar os filhos na porta
da escola. Ela prefere estacionar seu carro mais longe e fazer os
adolescentes caminharem até lá. Não satisfeita, reprova publicamente os
motoristas que alimentam a irregularidade. Os filhos protestam: "Que
mico!", diz Beatriz, de 15 anos. "Mãe, assim é você quem acaba sendo a
chata da história", afirma Lucca, de 12. A guerra à fila dupla envolveu
até o marido de Márcia, Marcelo, que certo dia colocou a convicção da
mulher à prova: "Você quer estar certa ou quer ser feliz?" É um velho
dilema. Filósofos gregos já se faziam a pergunta há mais de vinte
séculos: uns defendiam que fazer o que é correto, o que deve ser feito, é
o caminho para a felicidade; outros argumentavam que tal conciliação é
impossível.
O dilema vive no Brasil hoje. E se acirrou há poucas semanas com a publicação do artigo do economista Gustavo Ioschpe,
colunista de VEJA, intitulado "Devo educar meus filhos para serem
éticos?" Ioschpe revelou a apreensão de criar filhos em uma nação às
voltas com problemas éticos de estaturas variadas — da ausência de
pontualidade para compromissos à ausência de honestidade para governar. A
certa altura, ele apresentou assim seu dilema: "Será que o melhor que
poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não
aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da
preocupação com a integridade?" Foi a senha para que milhares de
leitores se manifestassem, compartilhando apreensão idêntica.
Mais de 30.000 pessoas recomendaram o texto, reproduzido em VEJA.com,
utilizando recurso do Facebook; centenas deixaram comentários ao artigo
e espalharam as ideias contidas nele pela internet. Muitos aproveitaram
a ocasião para contar suas histórias, seus dilemas. É o caso de Márcia
Costa e dos demais pais ouvidos nesta reportagem. "Temos que criar
nossos filhos para serem do bem ou para se darem bem? A preocupação é o
quão inocente nossos filhos vão ser se forem educados para serem do
bem", diz a tradutora Samira Regina Favaro Gris. A médica Denise Zeoti
acrescenta: "A ideia de passar valores para minha filha e torná-la uma
presa fácil me assusta. Quero que ela seja uma pessoa ética, correta,
mas não quero que ela seja passada para trás." Continue a ler a reportagem
http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/o-dilema-da-criacao-dos-filhos-a-etica-compensa
