“Educação é uma rede, não um ponto isolado”
Professor analisa cenário da Educação no Acre
Ele aprende em salas de aula. Esteve em escolas públicas e particulares do Acre por 20 anos. É especialista em Educação, Sociologia e mestrando em Filosofia. Mesmo estando atualmente no rio de Janeiro, Aldo Bourdieu acompanha com atenção os movimentos das políticas públicas relacionadas à Educação no Acre.
Sobre o atual programa de erradicação do analfabetismo executado pelo Governo, o “Quero Ler”, Bourdieu tem uma leitura crítica. “Prioridade é haver um pacto estadual de educação entre Universidades, sindicato e secretarias de educação para que alunos saibam ler e para que saibam escrever bem. Uma vez esse pacto, é preciso transformar a estrutura escolar, porque, sem transformar a estrutura escolar, não se qualifica o ensino”.
Ele avalia que o Acre tem uma escola que estacionou no século XIX e que o poder público não tem sabido se adequar às próprias mudanças que promoveu. “Quero deixar claro que o PT alterou para a melhor a educação acriana, mas quero deixar claro também que o PT há um bom tempo não sabe o que faz com a educação acriana que ele melhorou”.
Aldo, efetivamente, o analfabetismo é o problema prioritário na Educação Pública do Acre?
Com o governador Tião Viana, o PT completará 20 anos no poder, são muitos anos no poder, tempo suficiente para zerar o analfabetismo, mas o mesmo partido no poder volta com uma única temática para a educação acriana: analfabetismo. Educação é uma rede, não é um ponto isolado em um oceano de problemas.
Você tem experiência de sala de aula, tanto no setor púbico quanto privado. O que seria prioridade? Na rotina do ensino, o que é mais urgente no Acre?
Prioridade é haver um pacto estadual de educação entre Universidades, sindicato e secretarias de educação para que alunos saibam ler e para que saibam escrever bem. Uma vez esse pacto, é preciso transformar a estrutura escolar, porque, sem transformar a estrutura escolar, não se qualifica o ensino. Quem nos ensina sobre isso é Anísio Teixeira. Nesses anos todos, o partido que está no poder não alterou a estrutura escolar e, quando digo estrutura, digo transformar também o tempo e o espaço escolar.
Transformando a estrutura, venceremos um outro problema escolar: a gestão.
Transformando a estrutura, venceremos um outro problema escolar: a gestão.
Não houve mudança estruturante na Educação acriana? Os índices que se apresenta obedecem à lógica "estávamos em último lugar antes de 1999 e agora disputamos os primeiros lugares..." Há algum erro de concepção nesse raciocínio?
Pegue um aluno acriano do ensino médio e um aluno do Rio Grande do Sul ou do Rio de Janeiro para que ambos escrevam uma redação. Compare as redações. Eu tenho redações de alunos de escola pública acriana e tenho redações de alunos de escola pública carioca, e a diferença é imensa. O governo propaga a ideia de que o Acre está em primeiro lugar na Educação, mas a realidade empírica não apresenta leitura melhor, não apresenta redação melhor. Para você ter uma ideia, não há leitura e nem produção textual nas escolas acrianas. O governo diz estar entre os primeiros sem que haja sala de leitura nas escolas acrianas. Como diz Nietzsche, o Estado é o mais monstro de todos os monstros e friamente ele mente.
E quanto à questão da estrutura?
Quanto à questão de estrutura, é um assunto vasto, cheio de dobras, mas a base encontramos em Anísio Teixeira, no empirismo inglês. Está no pragmatismo de John Dewey. Enfim, se não transformar a estrutura, não se qualifica a Educação. A escola acriana mantém uma estrutura de século 19 enquanto aqueles que pensam a Educação no Acre buscam colocar ideias de século 21. A conta não fecha.
É claro que a existência de analfabetos evidencia uma série de outros problemas que extrapolam a questão educacional. Mas, não te fica a impressão que essa intenção de zerar o analfabetismo (11 mil pessoas em 2015) e zerar os 13,5% é um esforço mais midiático do que efetivamente resolver aquilo que é prioritário na Educação?
Quero deixar claro que o PT alterou para a melhor a educação acriana, mas quero deixar claro também que o PT há um bom tempo não sabe o que faz com a educação acriana que ele melhorou. Antes do PT, havia no passado educacional do Acre a não educação, não escola, e o PT edificou uma imagem de escola, construiu algo a partir de uma pilhagem, de um escombro. Em campanha política, o PT há anos fala desse passado que não pode voltar. O passado do PT serve de exemplo fixo, imóvel, ou seja, não avançamos, porque o PT olha para o passado de outros governos, mas se esquece de que o PT vive de seu passado que já deveria ter sido ultrapassado. O presente de que o PT fala hoje é a mesma imagem do passado petista que permanece igual.
E a participação dos professores na construção de um modelo novo?
Enquanto fui um simples professor da rede estadual, o corpo docente jamais foi chamado pelo governo petista de Jorge, de Binho e de Tião para edificar uma educação pública. O que há na educação acriana em termos de política pública de leitura? O que há nas escolas acrianas em termos de política pública de produção de texto? Qual a combinação que existe nas escolas públicas acrianas entre escola e cultura?
O Acre me ofertou uma filha acriana. Uma vez ela disse que não gosta de ler nas redes sociais que o Acre não existe. Ora, para que alunos acrianos possam combater essa ideia cristalizada nas redes, é preciso saber se defender, e esse saber se defender depende de palavras pensadas na escola. A afirmação de ser acriano começa na escola.
Para finalizar, gostaria de te lembrar que ainda na gestão do Jorge Viana, houve o esforço de combater o analfabetismo em parceria com a iniciativa privada. Essa é uma missão que a iniciativa privada deve se envolver?
Sempre o esforço. Não há esforço para construir estradas e pontes, porque se constrói e pronto. Na Educação, sempre "esforço". Quanto à iniciativa privada, ela deve participar, e essa participação deve ficar clara à sociedade acriana.
http://www.agazeta.net/politica/9269-educacao-e-uma-rede-nao-um-ponto-isolado