Sonho e tragédia: joia do futebol do AC tenta recomeço após perder perna
João Victor Souza, 13 anos, fazia parte da escolinha do Santos em Rio Branco, capital do Acre. Em outubro de 2015, teve a perna esmagada por ônibus e a vida mudou
Manhã do dia 9 de outubro de 2015, Terminal Urbano, Rio Branco, capital do Acre. João Victor Souza, na época com 12 anos, estava a caminho de um jogo sub-13 da escolinha do Santos. Na parada da linha do Distrito Industrial com amigos, ele apontou para o motorista do ônibus parar. Foi ali que a vida do menino que sonhava em ser jogador de futebol mudou drasticamente. A perna esquerda de João Victor, acostumada com os dribles desconcertantes do meia em campo,foi esmagada pelo veículo. Cinco meses depois do acidente, ele falou sobre o sonho de entrar em campo e a marca de uma vida em reconstrução.
- Eu quero ser jogador de futebol... Vou ser. O Neymar me inspira. Não sei (se vou conseguir realizar o sonho). Desde que meu pai comprou a primeira bola comecei a jogar e nunca mais parei - contou João Victor.
Criança, o acreano tinha uma vida dedicada aos estudos e ao futebol. Torcedor do Flamengo, ele treinava na escolinha do Peixe para seguir os passos do ídolo Neymar. A rotina já não é a mesma. Quando pensa em entrar num ônibus, sente "medo".
- Ia para todos os cantos. Ia para a escola de manhã, de tarde ia para o treino. Nos fins de semana tinha jogo. Aí, minha vida mudou do dia para a noite. Fico comendo direto para ver se a mágoa passa, mas não passa. Todo mundo tem trauma. Hoje não (consigo andar de ônibus), mas futuramente vou conseguir. Nem a melhor prótese que tem no mundo vai copiar o valor de uma perna que uma pessoa tem.
Relembrar o acidente é doloroso. Após a roda passar por cima da perna dele, João Victor foi encaminhado ao Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb). A perna esquerda foi amputada um pouco acima do joelho.
- Tinha R$ 10 para eu lanchar, porque não tinha tomado café da manhã. Ia lanchar, mas decidi lanchar lá no Santos. Fui para a parada para pegar o Distrito (Industrial, linha de ônibus), porque meus amigos do Santos estavam lá. Todo mundo deu a mão para ele parar e ele parou. Tinha duas mulheres na minha frente e um senhor. Ele era para entrar pela frente, mas veio por trás e dei minha vaga. Ia ser o último. O motorista não me esperou. Quando pisei, não deu tempo de segurar dos lados, ele acelerou, me desequilibrei e cai.
Para vencer os desafios diários da nova vida, o estudante conta com o apoio da mãe, Manoela Souza. Na época do acidente, ela vendia bombons de chocolate nas ruas. Precisou deixar o serviço para se dedicar exclusivamente ao filho.
- Ele (motorista) arrastou meu filho da parada do Distrito até a parada do Tucumã, mais ou menos uns 200 metros. Todo mundo gritando para o motorista parar o ônibus, que ele tinha atropelado uma criança e ele não parou. Quando ele parou, somente ele desceu e correu para a cabine da PM (Polícia Militar) dentro do Terminal. Ele não foi prestar socorro ao João Victor. Não foi ver qual era o estado do João Victor, se ele estava vivo ou morto. Acabou com a vida do meu filho. Acabou com o sonho do meu filho. Meu filho, desde um ano, a primeira coisa que demos para ele foi uma bola de futebol. Ele já nasceu com o intuito de ser jogador de futebol - contou a mãe, que clama por justiça.
E quem acompanhou o garoto por um ano na Escolinha do Santos foi o técnico Eronilson Teles, de 25 anos. O treinador afirmou que o jovem tinha potencial para os gramados. A dor de ver um sonho perdido no meio do caminho é a sensação que pocuso gostariam de sentir.
- Mesmo que ele não tivesse talento para ser um jogador profissional, acabou tendo seu sonho destruído. E quando vemos qualquer pessoa não ter mais a oportunidade de realizar seus sonhos, seja qual for, é muito triste. É um bom garoto e tinha potencial - completou Teles