Site Cultural de Feijó

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As lendas amazônicas traduzidas no trabalho de Enock Tavares, o artesão da floresta

“Se o que faço é arte ou não, isso depende do gosto de cada pessoa” – Fotos: Regiclay Saady
Lendas sobre criaturas que habitam a floresta amazônica sempre povoaram a imaginação dos que vivem em um dos biomas mais ricos do planeta. Os nativos da região acreditam nessas crenças e afirmam que os mistérios da floresta existem, e que esses seres são guardiões da mata e dos que nela vivem. Em Rio Branco, o fascínio por essas histórias e o amor incondicional pelas artes fizeram com que o paraense Enock Tavares da Silva, 67 anos, criasse um lugar “habitado” por esses seres que tanto fascinam crianças e adultos.
O espaço conhecido como “Casa Mapinguari – Arte e Cultura” fica localizado no bairro Custódio Freire, BR-364. Lá, seu Enock confecciona diversas esculturas, pinturas em tela e vários tipos de artesanato. A maioria deles expressa o que ele apreendeu a admirar desde cedo. “Sou de Belém do Pará, mas cresci em colônia, ou chácara como muitos conhecem. Tinha contato com caboclos, seringueiros, índios e também caçadores, e logo me encantei com as histórias que ouvia. Muitas sobre o Mapinguari, Cobra Grande e Matinta Pereira”, diz Silva.
O artista comenta que aprendeu a gostar de arte ainda criança, quando observava o pai trabalhar. “Meu pai trabalhava com pintura e isso de certa forma me incentivou. Como gostava de escutar os relatos sobre as criaturas da floresta, comecei a fazer bonecos de argila parecidos com esses seres, isso com oito anos de idade. Aperfeiçoei a minha atividade com o tempo, pois sempre queria inovar. Depois de adolescente, passando em frente de algumas vitrines de lojas de Belém, vi a necessidade de expor o meu trabalho como vitrinista, cartazista e decorador, e todos gostaram”.
A cobra grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa serpente, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmensurada e ameaçadora
Com 45 anos, ainda em sua cidade natal, Enock começou a desenvolver um projeto social com crianças carentes. “Sou formado pela Universidade Federal do Pará. Sempre achei importante repassar os meus conhecimentos as outras pessoas, principalmente às crianças que viviam em bairros da periferia. Vi a necessidade de ensinar a arte, tudo o que aprendi durante anos. A educação junto com arte é uma das principais ferramentas para o desenvolvimento intelectual da garotada. Sempre achei importante o trabalho desenvolvido nas comunidades”.
“O mundo das artes me proporciona alegria há mais de 50 anos. Espero que possa exercer essa profissão por mais 50, pois a perpetuação da arte é um legado para as novas gerações”, disse Enock Tavares

O artesão na capital acreana

O artista fixou residência em Rio Branco no fim da década de 1990. A vinda de Tavares se deu após sua esposa conseguir um trabalho de biblioteconomia na capital acreana. “Ainda passei alguns meses em Belém antes de chegar nessa cidade. No começo morava em casa alugada. Há mais de sete anos estou morando no bairro Custódio Freire. Aqui, onde vivo com minha esposa e meus três filhos, dois meninos, um de cinco e o outro de oito, e uma menina de treze anos, exponho os meus trabalhos. Tudo isso aqui é minha vitrine”.
Seu Enock também fala sobre o preconceito que algumas pessoas têm do local, isso antes de conhecer a atividade que ele realiza. “No começo era um pouco mais complicado, mas algumas pessoas ainda pensam que o espaço está ligado à macumba, ou algo parecido. Porém, quando explico sobre o meu trabalho, e que tudo isso aqui é arte, todos entendem. Quem quiser visitar a Casa Mapinguari está convidado. Não cobro nada, quero que as pessoas admirem o que faço e preserve tudo isso. Muitas escolas da capital trazem os seus alunos para conhecerem um pouco mais sobre as lendas amazônicas”.

Trabalho social em Rio Branco

Tavares destaca o trabalho social que realiza com as crianças que vivem no Custódio Freire. “Atualmente, estou ensinando crianças da comunidade. Todas elas gostam de participar das aulas e já confeccionam suas obras de arte. O que faço é com muito amor, carinho e dedicação. Sou cristão e acredito muito na bondade das pessoas. Enche-me de orgulho ver essa garotada apreendendo sobre a arte e suas técnicas. Pretendo expandir essa ação para que mais crianças possam entendem e apreciar esse universo que fascina”.

Incentivo

O artesão, que exerce multifunções e garante dominar mais de 20 técnicas, ressalta que existem muitos artistas de talento na região, mas falta incentivo para que possam exercer suas atividades. “Muita gente realiza um trabalho excepcional. No entanto, a falta de apoio acaba atrapalhando os sonhos profissionais dessas pessoas. Sou professor, escultor, modelador, cartazistas e artesão. O mundo das artes me proporciona alegria há mais de 50 anos. Espero que possa exercer essa profissão por mais 50 anos, pois a perpetuação da arte é um legado para as novas gerações”, enfatiza.

Algumas lendas amazônicas

Segundo povos nativos, o Mapinguari seria uma criatura coberta de um longo pelo vermelho que quando percebe a presença humana, fica de pé e alcança facilmente dois metros de altura. O Mapinguari também possuiria um cheiro horrível, semelhante ao de um gambá. Esse mau cheiro faz com que sua presa fique tonta, o que permite ao bicho apanhá-la com facilidade. Alguns dizem que tem dois olhos, mas é mais famosa a versão ciclope (um olho na testa). Uma hipótese que explicaria a existência desse ser, sugerida pelo paleontólogo argentino Florentino Ameghino no fim do século XIX, seria o fato da sobrevivência de algumas preguiças gigantes (Pleistoceno, 12 mil anos atrás) no interior da Floresta Amazônica.

A cobra grande

A cobra grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa serpente, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmensurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios. Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés. Conta a lenda que a cobra-grande pode se transformar em embarcações ou outros seres. Aparece em numerosos contos indígenas. Um deles conta que em certa tribo indígena da Amazônia, uma índia, grávida da Boiúna, deu à luz a duas crianças gêmeas. Uma delas, má, atacava os barcos, naufragando-os.

Matinta-Pereira

A Matinta-Pereira, também conhecida como Mati-Taperê, é uma personagem do folclore da Região Norte do país. É representada por uma mulher idosa e assustadora que veste uma roupa escura e velha. De acordo com a lenda, a Matinta passa as noites e madrugadas pelas ruas assoviando de forma estridente, amedrontando as pessoas. Segundo os mais “antigos”, uma forma de não ser perturbado por Matinta seria oferecendo a ela, no dia seguinte, algum tipo de alimento e tabaco (fumo). Desta forma, ela deixaria de assustar as pessoas da casa. Caso contrário, ficaria assoviando todas as noites nas proximidades da residência.
O fascínio por essas histórias e o amor incondicional pelas artes fizeram com que o paraense Enock Tavares da Silva, 67 anos, criasse um lugar “habitado” por esses seres que tanto deslumbram crianças e adultos

Curupira

Reza a lenda que o Curupira, conhecido, por outro lado, como “demônio da floresta”, que assobia e utiliza falsos sinais, reúne muitas histórias que envolvem mistérios inexplicáveis como o desaparecimento de caçadores, bem como o esquecimento dos caminhos. Dizem que com seus pés virados para trás, o curupira engana e confunde as pessoas que danificam seu habitat, por exemplo, os caçadores, madeireiros, lenhadores, etc. Esse personagem folclórico não gosta de locais muito habitados e, por esse motivo, prefere morar nas florestas. Outra característica do Curupira é que gosta muito de fumar e de beber pinga.
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