“O número de agentes penitenciários com depressão é alarmante”, diz ex-presidente da categoria
Suicídio de agente penitenciário gera denúncia sobre pressão de nova diretoria
A morte do agente penitenciário Marcelo Souza da Rocha Alves, que cometeu suicídio na tarde desta terça-feira, 12 de março, na guarita do pavilhão A do presídio estadual Francisco D’Oliveira Conde (FOC) traz à tona um dos dramas vividos pelos carcereiros nos últimos tempos, o estresse diário advindo da profissão aliado a pressão exercida por parte do Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen/AC).
A afirmativa partiu do ex-presidente da Associação dos Agentes Penitenciários do Acre (Assepen/AC), José Janes Peteca, que foi a última pessoa a conversar com Marcelo Alves, antes de disparar um tiro de espingarda calibre 12 contra a própria cabeça.
De acordo com José Janes, ele encontrou com Marcelo Alves minutos antes do ocorrido. O ex-presidente da Assepen perguntou se o colega estava bem que respondeu que sim e seguiu rumo à guarita da penitenciária onde tempo depois cometeria suicídio.
Janes e um grupo de colegas ouviram o barulho do disparo e logo correram para o local onde Marcelo estava de plantão.
“Eu o encontrei e perguntei se ele estava bem, ele disse que sim e seguiu para a guarita do Pavilhão A, minutos depois só ouvimos o barulho do tiro e deduzimos que vinha do local onde o Marcelo estava. O Marcelo me procurou há uns dois meses achando que eu poderia suspender sua transferência para a FOC. Ele me disse que não tinha condições psicológicas para atuar ali pois estava se recuperando de problemas com álcool e drogas”, comentou Janes.
Marcelo era lotado na Unidade Penitenciária 4 (UP-4), a conhecida Papudinha onde são mantidos presos de nível superior e de regime semiaberto. A UP4 é considerada um posto de trabalho light em relação à FOC onde estão as facções e bandidos de alta periculosidade. Com sua transferência para a FOC, Janes ouviu repetidas queixas de Marcelo bem como queixas de vários outros colegas nas mesmas condições, inclusive sobre pressão sofrida por parte da administração do Iapen.
“Sem a realização de concurso público e um déficit muito grande de agentes, o novo diretor-presidente do Iapen está sufocando os agentes, pegando todo mundo sem se preocupar com a capacidade emocional de cada um. O número de profissionais com quadro depressivo no sistema é alarmante. A morte de nosso colega Marcelo, agente penitenciário na FOC, escancarou o grau de pressão que a categoria sofre dentro e fora do serviço”, criticou Janes
No final da tarde, o diretor-presidente do Iapen, Lucas Gomes, que também é agente penitenciário e foi presidente do sindicato da categoria, emitiu nota classificando o caso como um “suposto suicídio” e que a Polícia Civil estava tomando providências.
A crise no sistema prisional acreano se arrasta por vários anos. Inúmeras foram as denúncias de falta de estrutura física e humana nos presídios do Acre, bem como ameaças aos agentes penitenciários e seus familiares, falta de equipamentos de proteção, excessiva carga de trabalho e o quadro reduzido de servidores.
A reportagem tentou contato com o diretor-presidente do Iapen, mas até o fechamento do material não conseguiu falar com ele e nem com sua assessoria.
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