Educação: Universidades baixam nível de ensino e geram candidatos despreparados
Os últimos dados do Ministério da Educação mostram que entre 2001 e 2010 o
número de alunos matriculados em universidades mais que dobrou. Hoje, são quase
6,4 milhões estudantes. Não há como negar: o acesso à educação aumentou. Mas que
tipo de educação?
“Existe certo conluio entre faculdades de má qualidade e alunos que buscam
diploma. Alguns porque não têm condições de fazer um ensino puxado naquele
nível, porque já trazem deficiências anteriores. E outros porque não têm
condições de ficar muito tempo numa faculdade, ser reprovado duas ou três vezes.
Eles querem passar e conseguir o diploma”, aponta José Pastore, professor de
Relações do Trabalho da USP.
Estamos caminhando bem na quantidade e muito mal na qualidade. É estarrecedor
o resultado do indicador de alfabetismo funcional, que mede a capacidade das
pessoas de ler, entender o que leem e de fazer as operações básicas de
matemática. Dos alunos que concluem o Ensino Superior, 38% não são plenamente
alfabetizados. Entre os que concluem o Ensino Médio, esse número sobe para
65%.
Isso criou um sistema perverso. Muitas escolas baixaram o nível de seus
currículos ou criaram aulas de reforço para buscar o aluno que veio mal
preparado da etapa anterior.
“Tornamos o curso universitário quase que um curso preparatório, e não mais
um curso de formação. Ao fazer isso, o que acontece: acabamos exigindo hoje que
a pessoa que termina um curso universitário e se sente completamente impotente
para resolver os problemas sérios que aparecem no seu dia a dia, que ela tenha
que fazer um curso de especialização”, explica Luiz Carlos Cabrera, professor da
FGV de São Paulo.
O professor, que também é um caçador de talentos no mercado de trabalho,
explica que é por isso que sobram vagas para quem é, de fato, preparado. Uma
pesquisa da Fiesp mostra que 82% das empresas paulistas têm dificuldade para
encontrar mão de obra qualificada.
“Se a gente não diminuir a régua, se a gente não diminui a nota de corte, a
gente não contrata ninguém”, reforça a recrutadora Eliane Figueiredo. Se
antigamente eu avaliava dez pessoas para fechar uma vaga, tem vagas que a gente
chega a falar com 40 pessoas, com 80 pessoas.”
Para preencher 11 vagas de engenheiro de uma fábrica de cimento, três mil
pessoas se mostraram interessadas no início. Os recrutadores querem saber
primeiro, de uma turma de finalistas, se o candidato tem um bom raciocínio
lógico, se consegue trabalhar em grupo. O que faltar de conhecimento específico,
que a faculdade não deu, a empresa complementa.
“O recém-formado chega na empresa. Se não houver um programa de treinamento
muito intensivo para ele desenvolver a sua profissão, não tem como ele assumir
logo a responsabilidade”, opina o gerente industrial José Maia Barreto.
Sabendo que precisa investir na formação do novo funcionário, um banco dá
preferência para pessoas pró-ativas, aquelas dedicadas, com iniciativa e
capacidade de superar dificuldades.
“Pessoas que têm um potencial muito grande, nem sempre com acesso a uma boa
escola, mas pessoas que têm muita vontade de fazer, realizar”, diz Marcelo
Orticelli, diretor de Recursos Humanos.
Qualidades que colocaram a estudante de direito Karine Cézar Peixoto no
departamento jurídico do banco.
“Há quem diga que é sorte. Sair de uma escola pública e estar aqui, onde
estou hoje. Talvez seja sorte, mas se eu não tivesse preparada, eu conseguiria
da mesma forma?”, reflete a estagiária.
Esse é o caminho que Iomar quer seguir. Superar e vencer.
“Não é porque eu perdi hoje que amanhã eu não posso conseguir. Porque eu
tenho aquele objetivo: crescer e conseguir o que eu quero”, conclui.
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/08/universidades-baixam-nivel-de-ensino-e-geram-candidatos-despreparados.html
