“Racismo não é cultural. Racismo é crime”, diz jornalista acreana sobre comentário de William Waack

No mês da Consciência Negra, um vídeo divulgado na internet na última quarta-feira (8) chocou os internautas e a comunidade jornalística. Nele, o apresentador William Waack, da Rede Globo, aparece fazendo comentários racistas, sendo possível ouvir quando o jornalista diz a frase “É coisa de preto”.
A gravação em que aparece o apresentador do Jornal da Globo foi feita durante a campanha eleitoral dos Estados Unidos em 2016. Pouco antes de entrar ao vivo, Waack xinga um carro que buzinava logo abaixo de onde seria a transmissão. Depois, se vira para o convidado (Paulo Sotero) e afirma duas vezes que o barulho “é coisa de preto”.

O apresentador William Waack foi afastado da Rede Globo até que “a situação seja esclarecida”. Imagem: Reprodução
Na última quinta-feira (9), a Rede Globo emitiu um comunicado onde informava o afastamento de Waack da programação da emissora. No comunicado, é destacado que “nenhuma circunstância pode servir de atenuante” e que o apresentador ficará afastado até que “a situação seja esclarecida”.
O nome do jornalista logo entrou para os Trending Topics da rede social Twitter, onde os internautas, como forma de combater as declarações racistas, criaram a hastag #ÉCoisaDePreto, enaltecendo diversos feitos de pessoas negras ao redor do mundo. Entre as personalidades destacadas, está o escritor Machado de Assis (1839-1908), a atriz Viola Davis, o atleta Jesse Owens (1913-1980), e o cirurgião Bem Carson.
Marcelina Freire, jornalista acreana de 28 anos, relatou à equipe da ContilNet que é preciso desconstruir essa cultura de “levar tudo na brincadeira”: “No tom de brincadeira, às vezes muito do que se diz mostra o que a pessoa realmente pensa. Eu, por exemplo, já entrei em conflitos com antigos colegas de trabalho sobre o assunto. Racismo não é cultural. Racismo é crime”.
Em uma situação de racismo recordada pela jornalista, ela lembra de um momento em sua adolescência, quando estava acompanhada do irmão e das irmãs em uma loja. “Do momento em que entramos até o momento em que saímos do estabelecimento, o segurança não saiu de perto da gente. Na época, eu ainda não tinha essa noção de que devemos ‘ir ao combate’, e não fizemos nada. Houve constrangimento e todos entenderam o real motivo”, disse Freire.

Jornalista Marcelina Freire destaca que “é preciso desconstruir essa cultura de ‘levar tudo na brincadeira'”. Foto: Arquivo pessoal
Sobre a situação do apresentador William Waack, Marcelina destaca a importância da sociedade brasileira estar em um momento onde a questão racial está sendo debatida e as vozes dos representantes estão sendo ouvidas.
“É importante que entendam que esse tipo de pensamento é coisa de séculos passados. A hashtag destaca exatamente isso ao transformar uma declaração racista em postagens de empoderamento: qualquer coisa pode ser coisa de preto”, afirmou.
LEIA A NOTA DA REDE GLOBO NA ÍNTEGRA:
“A Globo é visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações. Nenhuma circunstância pode servir de atenuante. Diante disso, a Globo está afastando o apresentador William Waack de suas funções em decorrência do vídeo que passou hoje a circular na internet, até que a situação esteja esclarecida.
Nele, minutos antes de ir ao ar num vivo durante a cobertura das eleições americanas do ano passado, alguém na rua dispara a buzina e, Waack, contrariado, faz comentários, ao que tudo indica, de cunho racista. Waack afirma não se lembrar do que disse, já que o áudio não tem clareza, mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação.
William Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços ao jornalismo. A Globo, a partir de amanhã, iniciará conversas com ele para decidir como se desenrolarão os próximos passos.”




